Causo

Causos de fadas.

Introdução

28 de julho de 2009 - 21:36

Chegamos atrasados, durante a hora a mais que congelou toda a rua, portanto, afoitos, pedimos um espaço na sala de aquecimento, em meio à fila imensa, e fomos atendidos com gentileza pelo aspecto azulado de nossas peles. Recuperados, agradecemos a todos os que cederam o lugar à frente e nos encaminhamos ao bar.

- Ichiju-sansai, por favor! – pedi ao garçom.

- Uísque duplo e sem gelo, garoto. – pediu Roco.

- Não sabia que é permitido álcool em Ganimedes. – espantado, pois a maioria das colônias de terraformação fracassada não permite o comércio de substâncias que alteram o comportamento.

- Você marca comigo nesse fim de mundo e nem conhece o lugar? Por que não fizemos isso pela rede? – irritado com o desencontro na chegada ao satélite.

- Calma, Roco, eu só não confio na rede.

- Está dizendo que o nosso protocolo é falho? – recebe o copo com uísque e dá um trago generoso.

- Não falo do sistema de Europa; a Lua é muito perto da Terra.

- Aquele buraco de corruptos é, realmente, algo a se preocupar.

- Pelo menos somos democráticos, não é?

- Foi pra criticar a política do lado frio do Sistema Solar que me chamou?

- Não, claro, não foi pra isso!

- Então desembucha, lunar!

- Como você sabe, a terraformação da terra será votada no concílio terrestre…

- E não sei se é redundante ou irônico. – sorrindo, após interromper.

- Eu sei, é uma falácia.

- Como assim?

- Algumas fontes descobriram que a maioria dos membros do concílio está investido alto em empresas de pesquisa e produção de reatores de grávitons de hidrogênio.

- Para a terraformação?

- Não, são reatores de tamanho mínimo, próprios para espaçonaves.

- Isso muda a coisa de figura… O que sabe mais?

- Temos códigos de lançamento em massa previstos para pouco mais de um ano terrestre, seis semanas antes do início do processo de terraformação. – recebi o ichiju-sansai com dashi e reclamei ao garçom: – Não é dashi, quero misoshiru!

- Mas o Ichiju-sansai da casa é com dashi, Senhor! – retrucou o garçom.

- Engole essa porcaria assim mesmo, Gavin! – reclamou Roco. – Vai embora, moleque! – ordenou ao garçom, gesticulando vigorosamente. – Continua. – pediu-me.

- Eu não vou comer isso! – avisei.

- Fala primeiro e come depois! – demonstrando interesse pelo o que eu tinha a dizer.

- Tudo bem… As coordenadas de lançamento, por serem em massa e partirem de pontos distintos, não denunciam o destino, mas acreditamos que, pela capacidade dos reatores, podem alcançar até o nó de Netuno.

- Isso é muito interessante, mas não creio que vão tão longe.

- Também pensamos nisso; Tritão não comporta a população que especulamos.

- Quantos seriam?

- Quatro milhões.

- É um número alto.

- Pode acreditar.

- E o que você quer?

- Possivelmente, a terraformação é uma tentativa de levantar recursos para matar a população e retomar de um satélite.

- Isso é óbvio, mas o que quer?

- Eu te vendo as coordenadas de lançamento para que possa capturar as naves fora da zona de proteção terrestre.

- Para quem se diz um democrata, está me saindo um excelente anarco-capitalista!

- Parece, mas não perguntou o meu preço.

- Já que se antecipou, pode dizer.

- Durante a operação, desejo proteção total da biosfera lunar e, depois, dez por cento dos recursos pilhados.

- E a Terra?

- Creio que, sem recursos para alimentar as cidades subterrâneas, morrerão todos em menos de um ano.

Causo, Passo em Falso

Fragmento de Ana Dodói

18 de abril de 2009 - 17:29

Déia:

Pensou sobre a Ana?

Tito:

Sim.

Déia:

E o que decidiu?

Tito:

Se ela se predispor a fazer um exame toxicológico semanal, recebe o dinheiro.

Déia – surpresa e repreensiva:

Tiiito!

Tito:

O que queria? Depois do que ela fez, é o mínimo que posso fazer!

Déia:

Isso é crueldade, Tito!

Tito:

Crueldade será se eu der essa grana toda na esperança que ela estude e, ao invés disso, eu tenha que ir buscar o corpo no IML.

Déia:

Ai, para! Você fala assim, com essa calma, mas esquece que é sua irmã! O que ela vai pensar quando…

Tito – interrompendo:

Como? O que ela vai pensar? Déia, acorda! Quantas vezes internamos a Ana depois de quase morrer? Quatro? Cinco? Me lembra porque tô esquecido!

Déia:

Esquece isso, não vou brigar com você, mas não tenho coragem de ir dizer isso pra ela.

Tito:

Não foi ela que pediu ajuda? Vai te procurar… E eu não quero brigar.

Déia:

É o que tá parecendo. Se bem sabe como é a nossa irmã, vai vir aqui pra cuspir a raiva.

Tito:

Eu sei.

Déia:

Sabe e se comporta feito criança!

Tito:

Não, quero o melhor para a Ana.

Déia:

Você tá querendo passar por pai com cabeça de irmão mais velho; só isso.

Tito:

Déia, se ela continuar explodindo por qualquer coisa, nunca vai saber se virar.

Déia – irônica:

E você sabe.

Tito:

Você quer me comparar?

Déia:

Nunca parou pra imaginar que a Ana chegou onde chegou com a sua ajuda?

Tito:

Fui eu quem subiu o morro e colocou o cachimbo de crack nos beiços da Ana?

Déia:

Não, mas fomos nós que a impedimos de cursar o mesmo curso que você está pretendendo pagar agora… Cuidado com o que considera melhor pra ela!

Tito:

Déia, me deixa trabalhar!

Déia:

Tá bom, patrão!

Causo

Híbridos

1 de março de 2009 - 16:32

Durante todo o dia, evitei ser agressivo com Laila, fui excessivamente carinhoso, fiz todos os seus caprichos e, sabendo da minha tática, ela abusou. Além do costume de sairmos juntos para trabalhar, visitei a sua loja a ouvir tudo o que ela tinha em mente, comprometi-me a ajudá-la na empreitada e, mais tarde, após o horário de serviço, saímos à sua escolha; um bistrô aconchegante em que jantamos pela primeira vez. Passamos duas horas a conversar sobre a nossa própria vida, de como mudamos em cinco anos e de como podemos mudar nos próximos. Subitamente, intercedendo a minha chamada ao maître, pediu:

- Você promete que paramos se percebermos que vamos ultrapassar algum limite?

Não entendi de princípio do que se tratava e parei antes de chamar o senhor.

- Não entendi, amor.

- O bebê. – sorriu.

- Isso é um sim? – eu, que já estava animado, enchi-me de graça naquele momento.

- Não, isso é uma pergunta.

- Bem, depende do que podemos considerar um limite.

- É não fazer de tudo por um risco.

- Que tipo de risco?

- Sabe a Kelly?

- O que tem Kelly? – uma moça que trabalha em sua loja.

- Ela tá prestando vestibular e me disse umas coisas.

- Que coisas?

- Eu falei do que queremos fazer, sem dizer que somos nós, claro, e ela me contou que seria clonagem.

- Bem, segundo entendi, o material genético de um dos espermatozoides vai substituir o do óvulo.

- Desculpa, Lula, não entendo isso.

- Bem, em tese, a criança vai nascer com traços meus e seus; metade de cada.

- Isso parece errado.

- Não iremos saber se não tentar entender.

- Escuta só.

- Diga.

- Eu vou ao médico contigo, mas com uma condição.

- Qualquer uma.

- Eu só quero ouvir o que ele tem pra dizer sobre isso, então você vai me prometer que se ouver a menor chance de acontecer um trauma, paramos por aqui com essa ideia.

- Laila.

- Sim.

- Eu te amo.

- Eu sei, mas quero que prometa.

- Eu prometo.

Causo, Híbridos

Híbridos

1 de março de 2009 - 7:36

26 de janeiro

Laila estava deitada de costas para mim, aconchegada aos meus braços; acariciava o interior das suas pernas com o meu joelho esquerdo enquanto sentia o cheiro doce do hidratante misturado ao suor da sua nunca. Era um dia de domingo, ela estava feliz e me contava os novos planos para a sua loja de roupas, do tempo que despenderia para que tudo funcionasse ao seu agrado, mas que depois de feito disporia de alguma folga. Sugeriu que viajássemos, relembrou das férias que passamos em Natal, torrando na areia da Praia de Ponta Negra.

- Adoraria viajar, mas eu queria algo mais.

- Não entendi. Não está feliz comigo? – virou-se e me olhou nos olhos.

- Não é isso, é claro que estou feliz. Eu te amo. – beijei-a prolongadamente.

- Então diz o que é. – sussurrou ao meu ouvido.

Afastei-a, a segurá-la pelos ombros, respirei e propus:

- Quero um filho.

Laila parou por um momento, virou o rosto para a janela, voltou-o para mim e sorriu.

- Eu também quero, mas não sei como é esse negócio de adoção, ainda mais para nós.

- Não quero adotar uma criança.

- Ai, meu Deus… Você quer fazer com outra mulher?

- Não, contigo.

- Espera… Estamos juntos há cinco anos e ainda não percebeu que eu não tenho perereca? – brincou.

- Nossa, não tem?

- Não tem graça, Lula!

- Desculpa, desculpa. – beijei-a. – Procurei um amigo meu.

- E?

- Ele é médico.

- Acho que nem quero ouvir a bomba.

- Só ouça, juro que não toco mais no assunto se não quiser.

- Então diga.

- Ele me disse que podemos ter um filho, mas vai ser difícil.

- Difícil quanto e como?

- Bom, é ilegal e nunca foi feito com gente.

- Então esquece, temos problemas demais e não sou cobaia.

- Ele conseguiu fazer com camundongos.

- Olha pra mim.

- Tô olhando.

- Sou o Mickey Mouse?

- Não brinca, só quero explicar como seria.

- Não sei se vou entender e se vou gostar do que vou ouvir.

- Ao menos tenta, Laila.

- Tá bom, então não enrola e diga tudo de uma vez! – visivelmente impaciente e irritada.

- Ele é capaz de combinar as matrizes de dois espermatozoides para implantar num óvulo.

- Já tentamos uma barriga de aluguel e você sabe no que deu; esquece.

- Aí que tá!

- Aí que tá o que?

- Você vai ser a barriga de aluguel.

- Eu vou ser o que? Já falamos da falta de uma perereca, não foi?

- Sim, mas isso não é problema.

- Ele pode fazer mesmo isso?

- Pode sim.

- Não!

- Posso te pedir uma coisa?

- Lá vem!

- Posso?

- Pode.

- Aceita conversar com ele?

- Não, isso não é ilegal?

- Eu quero procurar nossos direitos na justiça.

- Você quer?

- Quero.

- E nem perguntou se eu quero.

- Você entendeu, preciso de você pra isso.

- Não.

- Posso pedir outra coisa?

- Tá pedindo demais, Lula.

- Isso que vou pedir é mais fácil.

- Peça.

- Pense e depois me responda.

- Já pensei.

- Pensou não, vou te perguntar amanhã.

- Você é um filho da puta!

- Amanhã?

- Desgraçado!

- Tá bom, amanhã.

- Tá, peste, amanhã eu te digo não de novo!

Causo, Híbridos