Causo

Causos de fadas.

Híbridos

1 de março de 2009 - 7:36

26 de janeiro

Laila estava deitada de costas para mim, aconchegada aos meus braços; acariciava o interior das suas pernas com o meu joelho esquerdo enquanto sentia o cheiro doce do hidratante misturado ao suor da sua nunca. Era um dia de domingo, ela estava feliz e me contava os novos planos para a sua loja de roupas, do tempo que despenderia para que tudo funcionasse ao seu agrado, mas que depois de feito disporia de alguma folga. Sugeriu que viajássemos, relembrou das férias que passamos em Natal, torrando na areia da Praia de Ponta Negra.

- Adoraria viajar, mas eu queria algo mais.

- Não entendi. Não está feliz comigo? – virou-se e me olhou nos olhos.

- Não é isso, é claro que estou feliz. Eu te amo. – beijei-a prolongadamente.

- Então diz o que é. – sussurrou ao meu ouvido.

Afastei-a, a segurá-la pelos ombros, respirei e propus:

- Quero um filho.

Laila parou por um momento, virou o rosto para a janela, voltou-o para mim e sorriu.

- Eu também quero, mas não sei como é esse negócio de adoção, ainda mais para nós.

- Não quero adotar uma criança.

- Ai, meu Deus… Você quer fazer com outra mulher?

- Não, contigo.

- Espera… Estamos juntos há cinco anos e ainda não percebeu que eu não tenho perereca? – brincou.

- Nossa, não tem?

- Não tem graça, Lula!

- Desculpa, desculpa. – beijei-a. – Procurei um amigo meu.

- E?

- Ele é médico.

- Acho que nem quero ouvir a bomba.

- Só ouça, juro que não toco mais no assunto se não quiser.

- Então diga.

- Ele me disse que podemos ter um filho, mas vai ser difícil.

- Difícil quanto e como?

- Bom, é ilegal e nunca foi feito com gente.

- Então esquece, temos problemas demais e não sou cobaia.

- Ele conseguiu fazer com camundongos.

- Olha pra mim.

- Tô olhando.

- Sou o Mickey Mouse?

- Não brinca, só quero explicar como seria.

- Não sei se vou entender e se vou gostar do que vou ouvir.

- Ao menos tenta, Laila.

- Tá bom, então não enrola e diga tudo de uma vez! – visivelmente impaciente e irritada.

- Ele é capaz de combinar as matrizes de dois espermatozoides para implantar num óvulo.

- Já tentamos uma barriga de aluguel e você sabe no que deu; esquece.

- Aí que tá!

- Aí que tá o que?

- Você vai ser a barriga de aluguel.

- Eu vou ser o que? Já falamos da falta de uma perereca, não foi?

- Sim, mas isso não é problema.

- Ele pode fazer mesmo isso?

- Pode sim.

- Não!

- Posso te pedir uma coisa?

- Lá vem!

- Posso?

- Pode.

- Aceita conversar com ele?

- Não, isso não é ilegal?

- Eu quero procurar nossos direitos na justiça.

- Você quer?

- Quero.

- E nem perguntou se eu quero.

- Você entendeu, preciso de você pra isso.

- Não.

- Posso pedir outra coisa?

- Tá pedindo demais, Lula.

- Isso que vou pedir é mais fácil.

- Peça.

- Pense e depois me responda.

- Já pensei.

- Pensou não, vou te perguntar amanhã.

- Você é um filho da puta!

- Amanhã?

- Desgraçado!

- Tá bom, amanhã.

- Tá, peste, amanhã eu te digo não de novo!

Causo, Híbridos

A Morte da Representação

3 de fevereiro de 2009 - 19:06

- Átila, você pode me ajudar com o meu celular?

- O que houve?

- A tela está clara demais, acho que desconfigurei ou deu problema.

- Deixa ver. – toma o celular das mãos do irmão e o verifica. – É a tela, algo na limentação com a bateria.

- Como sabe?

- Brilho, contraste e saturação estão normais, dá pra perceber o problema nessa cor desbotada da tela.

- Dá pra consertar?

- Dá sim, mas só às nove horas.

- Vai sair?

- Sim, vou ao tribunal legislativo.

- Puta merda, você e essa fixação por leis!

- Não é fixação, é necessidade.

- Necessidade?

- Sim, preciso votar para que a nova lei de mecatrônica entre na pauta.

- Nunca entendi esse negócio de democracia digital.

- Deveria, depois disso nunca mais precisamos ter ladrões pagos pelo povo, ops, representantes.

- Como é esse negócio dessa lei?

- O projeto precisa ser votado por 10 por cento da população para que entre em processo de aprovação.

- Aí tem aquela chatice de ir votar por maioria absoluta, sei.

- Para de reclamar, você tem 24 horas por dia e 7 dias por semana durante um mês para isso.

- Atravessar o bairro é traumatizante. – ri.

- Tá certo. Já vou, até!

- Até!

Causo

Pés por todo o resto

11 de janeiro de 2009 - 1:11

Aquele grandessíssimo filho de uma puta acha que é alguma porcaria que valha a pena, sentiu-se confortável para me dizer o que disse como se fosse um mero cumprimento matinal! Como assim, pedaço de carne de quinta? Tenho certeza que só enjoou de mim, da mesma forma que fugiu quando se cansou das outras; eu, idiota completa, acreditei que comigo seria diferente… Diferente, sei…

- Idiota!

- É comigo? – irritada, uma garota que também espera o ônibus, acredita que o meu raciocínio dito por impulso fora para ela.

- Não, perdão… – envergonhada, não sei o que sentir: esfrego o rosto com as palmas das mãos ao mesmo tempo em que uma careta brota do semblante.

- Precisa de ajuda?

- Não, acho que pensei alto, mas consigo superar. Perdão novamente.

- Quer conversar?

- Obrigada, mas acho que não.

- Tudo bem, se precisar sou toda ouvidos! – sorri.

- Obrigada! – abaixo a cabeça.

Levanto a cabeça e fixo a visão sobre a distorção do calor sobre o asfalto, mas a dança daquelas formas rígidas não me basta para que me desvie do ódio. Quase esqueço do acontecido só por trocar algumas palavras com uma desconhecida; talvez seja isso o que me falta, ocupar-me com algo para não lembrar. Conto as telhas das casas e a garota se levanta, avalio as cores neutras de suas roupas e a mesma se aproxima da estrada; um carro surge lentamente na distância borrada pelo sol.

- Vem carro, vou pedir carona pra ver se cola! – animada, ergue o braço direito no característico sinal com o polegar.

Mantenho-me sentada porque quase nunca param. Aproxima-se e vejo uma mulher e dois rapazes no veículo. Levanto-me por haver chance de carona, todavia, por precaução, não me aproximo tanto da pista. Agora estão muito perto e reduzem a velocidade. Cochicham entre si e um rapaz sentado no banco dianteiro pergunta para a garota que aguardava comigo:

- Carona?

- Sim. – apressa-se para entrar, mas para, repentinamente. – Ela também vai para a cidade! – Referindo-se a mim, que me aproximo.

- Só tem lugar pra uma. – afirma o rapaz enquanto a garota olha para mim com cara de dó.

- Sem problema, vai lá! – finjo um sorriso e faço sinal de positivo para que ela vá de uma vez.

- Tá… Tchau! – despede-se.

O rapaz abre a porta, sai para que ela se sente no banco traseiro e entra em seguida. O carro parte, lentamente acelera, e o mesmo rapaz diz em voz alta:

- Fica aí, cachalote!

Claro que havia espaço.

Causo

A Outra Versão

22 de dezembro de 2008 - 1:57

Há pouco mais de oito anos, li um trecho do seu diário a relatar essa passagem das nossas vidas; fiquei constrangido por tratar-se de mim, em carne e osso, cagado e cuspido, mas, por outro lado, agraciado por fazer parte desse capítulo autobiográfico de uma mulher que jamais esqueci. Não chamarei ninguém pelo nome, diferente do que ela fez em sua versão, pois, numa finalidade distinta, a minha será publicada.

Em meados de 1999, abandonei o curso acadêmico de Filosofia para passar uma temporada em Brasília, mas pouco tempo fiquei; talvez três meses até voltar à minha cidade natal, Ilhéus. Eu, um garoto de dezenove anos que até então era sustentado pelos genitores, mal sabia o que fazer da vida, talvez tivesse a intenção de ser músico ou artista plástico mesmo sem coragem para enfrentar o preconceito familiar, ou repleto de covardia por não se sentir capaz. Em casa, vivia em frente ao computador enquanto o meu pai pedia insistentemente para que eu estudasse a fim de prestar um concurso público da área do Direito, a sua especialidade, todavia eu fingia que concordava e ele fingia que acreditava numa decisão minha favorável às suas pretensões. O clima do lar era tenso, pois havia abandonado a faculdade por uma viagem que ninguém sabia ao certo do que se tratava; a princípio, eu iria montar alguns servidores de internet no DF, mas era mais uma balela da minha vida desleixada para ter sexo e drogas longe de qualquer pessoa que me conhecesse desde criança. Um dia liguei chorando para a minha mãe e pronto, as passagens de volta estavam lá no dia seguinte, mas um inferno astral se preparava para questionar a validade das minhas diretrizes por muito tempo.

Sempre fui uma pessoa de hábitos noturnos, por ser boêmio ou viciado em café, portanto, distante das vidas que dormiam, eu criava um mundo e aceitava outros tantos que se proclamavam à minha frente. Numa dessas noites, voltei bêbado da rua, liguei o computador, executei o navegador de internet e entrei num sítio eletrônico de bate-papo qualquer, não me lembro qual. Chamei-me “Nietzsche”, mas errei a grafia, coloquei o “t” à frente do “h”, troquei porque ainda mal sabia quem era o existencialista, conhecia-o de alguns resumos e da leitura superficial de “Humano, Demasiado Humano”, apenas pensei que seria “cult” ou qualquer zorra que o valha. A sala de Ilhéus estava cheia de homens, o que me desanimou, mas havia uma mulher que se apresentava como Ruiva; cor de madeixas que sempre mexeu com as minhas fantasias e libido. Iniciei a conversa com ela, que foi receptiva, entretanto, quando o dia estava prestes a raiar, algum fela da puta que cismou com a grafia incorreta do nome alemão, resolveu espezinhar-me em canal aberto, colando textos imensos do próprio Nietzsche na sala, para que, talvez, eu me sentisse envergonhado por ter cometido aquela, segundo o mesmo, profanação filosófica. Com o pouco de argumento que possuía, tentei debater com o desgraçado, contudo, para a minha surpresa, a ruiva me disse que precisava sair, mas me deu o número do seu telefone e pediu o meu. Era tudo o que eu precisava; dei o número, saí da sala e liguei para ela. Logo que atendeu, percebi que possuía um sotaque paulistano marcante. Perguntei-lhe o nome e ela me disse, perguntou-me o meu e eu também. Contou-me ser engenheira florestal e eu respondi, mentindo, ser estudante de Filosofia (nunca mais retornaria ao curso). Descreveu-me das poucas amizades que havia feito na cidade e de como precisava conhecer novas pessoas, então, propus-me conhecê-la, mas disse que não tinha um puto no bolso. Apesar de estar lidando com um liso e sem vergonha, a ruiva afirmou que não haveria problema se só ela bancasse a saída, por conseguinte marcamos para as duas horas do dia que acabara de nascer em um quiosque da Avenida 2 de Julho, um reduto de turistas. Aproximações e planejamentos feitos, despedimo-nos e fui dormir.

Assim que acordei, mal recordava do horário marcado, mas, faltando meia hora para o dito cujo, passei pela frente do computador e me lembrei. Ainda com os olhos inchados, procurei o telefone da ruiva, achei com dificuldade e liguei apressado para avisá-la que eu poderia chegar alguns minutos atrasado. Ela atendeu e, gentilíssima, pediu para que eu não tivesse pressa, pois estaria no Centro para resolver pendências pessoais. Tomei um banho rápido, vesti-me e fui a pé ao local marcado.

Quando estava perto de chegar, liguei do celular para ela.

- Já estou aqui. – respondeu.

Apressei os passos para encontrá-la e, quando cheguei, deparei-me com uma mulher madura para a minha idade, de seus 30 anos, o que causou um certo afastamento meu pela experiência inédita. Ela não era bonita, ou melhor, não era convencionalmente bonita; tinha dentes pronunciados, algumas tatuagens e os cabelos mais vermelhos que eu já tinha visto, vermelhos com química. Conversamos durante um bom tempo a beber algumas cervejas, reduzimos o distanciamento inicial e, aproximando-se do ocaso, preferimos ir embora dali. Como morávamos na mesma direção para quem saía do Centro, caminhamos juntos até a entrada do meu bairro, mas ela me fez um convite:

- Quer conhecer o meu apê? Eu moro logo ali em frente! – aceitei.

O apartamento da ruiva era algo espetacular, uma mistura de culturas bem interessante; das cores posterizadas do “Post-punk” inglês às luminárias japonesas, tudo se parecia com ela. Pedi para ver uma tatuagem de estilo tribal em suas costas, um desenho agressivo. Ela ergueu um pouco a camisa e se virou de costas. Eu pedi para tocar, pois, apesar do tamanho e diversidade das cores, não apresentava nenhum quelóide, mas, centímetros antes do toque em si, eu quis virá-la com força para beijá-la ali mesmo; não o fiz, insisti forçosamente um olhar clínico sobre a tatuagem, deslizando os meus dedos a esperar que ela esboçasse um sinal para que eu desistisse daquilo e tornasse ação o meu desejo.

Continua, ou não.

Causo