Causo

Causos de fadas.

Precisão

15 de dezembro de 2008 - 19:46

Sim, desejei levantar-me a fim de contá-la quanta saudade sentia, mas permaneci sentado, olhando para o palco como quem presta atenção à peça; fingi que não a vi. Por toda a confusão passada, mentiras minhas e dela, o ódio que senti, o mesmo que me autorizou a xingá-la sem o menor senso crítico, tornou aquela paixão dolorosa a partir do distanciamento abrupto; nutri com ódio um amor que insisti – incessante, falacioso e em fracasso – negar.

Lá pelo terceiro ato, quando me questionei se aquela situação me fazia bem, saí dali e me encaminhei ao hall de entrada do Municipal; o meu coração mal me deixava respirar de tão excitado, eu queria voltar, mas me sentia impotente… as minhas mãos suavam frio, os meus lábios tremiam e nada ao meu redor parecia digno de ser notado – assemelhava-me a um adolescente, um bêbedo ou, quiçá, um retardado.

Sobre o chão de mosaico que sempre me causou tontura, naquele momento em dobro, caí.

- Fausto! – ouvi o grito. – Fausto! – não queria que fosse aquela maldita, – Fausto! – mas era.

Causo

Fragmento da Promessa Não Cumprida

23 de novembro de 2008 - 1:00

Contrariando a normalidade, cheguei cedo à sala de aula, quase duas horas antes do início da maçante disciplina de composição, pois me sentia tensa por não ter conseguido criar os desenhos necessários para que fosse avaliada; faltava duas semanas para a entrega dos trabalhos e eu mal havia terminado a primeira metade. Surpresa, encontrei Melissa sentada à última fila de cadeiras, com um semblante comtemplativo, bloco aberto e bastões de papel espalhados sobre a mesa: apesar de ser criativa, quase sempre chegava atrasada e não correspondia aos apelos de todos os professores para que fizesse o proposto.

- Boa noite, Melissa! – cumprimentei.

- Oi, Bruna! Você pode me ajudar? – logo imaginei que deveria estar em situação muito pior do que a minha.

- Depende… Fala.

- Eu não agüento essa aula de Lúcia, são tantas instruções que me sinto acorrentada.

- É verdade, às vezes me confunde.

- Sabe, eu só assisto a aula dela chapada.

- Percebi! – sorri.

- Percebeu? Ai, meu Deus! – ironizou.

- Sim, está com dificuldades nos trabalhos?

- Não, estou com dificuldade com a dita cuja! – apontando para o chão da sala, indicando que a presença de Lúcia no ambiente era intolerável.

- E como posso te ajudar? Não entendi.

- Bem, estou careta: não tive tempo para fumar unzinho antes de vir para cá.

- Mas eu não curto.

- Bem, é que um cara me convidou pra fumar, logo que cheguei aqui.

- Sim, mas eu não curto.

- É por que eu não o conheço direito.

- Você tá querendo que eu vá contigo?

- Só pra não dar confiança pra ele, por favor!

- Não sei, Melissa. Se der merda, como fico?

- Falta muito pra aula começar e vai ser lá no terrraço. A gente sobe, como quem não quer nada, e ninguém fica sabendo.

- Olha, não sei.

- Poxa, Bruna, lá é a céu aberto; nem vai sentir cheiro!

Olhei para aquela cara pidona, implorando pela minha companhia, e, mesmo sabendo que ela queria me usar de escudo para uma possível investida do suposto cara, senti pena.

- Tá certo! – assim que falei, ela abriu um sorriso de criança quando ganha chocolate. – Mas tem um porém…

- Lá vem!

- Não quer que eu vá?

- Claro, desculpa… Diga.

- Qualquer roubada, você assume a culpa toda.

- Mas não vai acontecer, relaxa!

- Isso eu espero, mas prometa que irá assumir.

- Tá bom, tá bom! Eu prometo.

Causo

Ensaio Geral

15 de agosto de 2008 - 6:22

Após sair do estúdio, ainda com a ardência da quinta e última seção de pintura de uma tatuagem no tórax, acenei apressado para o primeiro táxi que vi, já noite, em meio aos travestis que começavam a trabalhar nas ruas da Vila Buarque. O veículo encostou próximo à calçada, poucos metros à minha frente, e dei um pique para alcançá-lo. Abri a porta rapidamente, entrei e sentei no banco de carona.

- Boa noite! Avenida Moema com Ibirapuera, por favor. – pedi.

- Boa noite! – o taxista, um homem grisalho a aparentar cinqüenta anos ou mais, acionou o GPS, definiu o destino, constatou o resultado no aparelho e me informou: – Quarenta e cinco Reais, senhor, porque o Minhocão está engarrafado, de acordo com a previsão de tráfego.

Desde que os taxistas começaram a cobrar antecipado, com essas engenhocas construídas por estadunidenses, inventam que há um engarrafamento aqui e outro ali quando percebem que não estamos carregando nenhum aparelho celular e não podemos verificar a previsão, mas, cansado, apenas movimentei a cabeça em sinal de afirmativo e paguei no cartão, mantendo um breve silêncio a ser quebrado assim que o motorista sintonizou o aparelho de rádio numa estação de música popular brasileira; tocava Sivuca.

- E o jogo de abertura, vai? – perguntou-me, referindo-se à Copa do Mundo.

- Não, não gosto de futebol. – respondi sem rodeios, mais preocupado com a dor da tatuagem recente.

- Faz bem, com essa seleção é o melhor que se pode fazer! – ensaiando um sarcasmo que eu mal pude entender, por não saber mesmo de nada sobre futebol, mas tentei deduzir.

Causo

Desejar e Querer

5 de agosto de 2008 - 17:47

Pressentindo que me encontraria com Aninha assim que saísse da minha consulta com a dentista, desliguei o celular para não receber uma possível ligação de Alessandra, garota com quem venho saindo, pois não estava paciente o bastante para responder as questões intrusivas daquela mulher. Um certo dia, quando a minha vida parecia ter se aprofundado nas mais temíveis trevas da estupidez, eu me relacionei intimamente com Aninha; era garota ainda, dezessete, baixa e gorda, perspicaz mas mimada, masoquista, traumatizada por ser filha de uma beldade e a própria aparência ser repugnante, enfim, um problema que eu poderia ter evitado.

Não precisei me sentir um Nostradamus, porque, como era de se esperar, lá estava ela, em pé, defronte ao balção da clínica, este que se alinhava no parapeito ao queixo da quase anã. Maldita hora em que comentei que iria à dentista para a estorvosa, abrindo o semblante em dentes assim que me viu.

- Que saudade, Deco! Esqueceu que eu existo? – saudou-me para perguntar o que eu não tinha coragem de responder com todos os ‘F’s e ‘P’s.

- Você sabe, Aninha, o trabalho me toma. Como está?

- Estou melhor agora, obrigada. E aí, vai fazer alguma coisa agora?

- Vou para casa, tô sem ânimo para sair. – torcendo para que ela partisse para bem longe de mim.

- Posso ir contigo? – fez a expressão facial que sempre fazia quando queria parecer um personagem de quadrinhos mangá que apetece por algo sem poder, mas, devido a feiúra deplorável, sempre me condicionou à vergonha quando em público.

- Você quem sabe. – tentei ser sutil, porém sabia que aquela catástrofe me acompanharia.

- Então vamos, senhor! – estendeu-me o braço, que segurei meio sem jeito, quando, na verdade, desejava empurrar aquela bolha de carne pelas escadas da saída.

Causo