Causo

Causos de fadas.

Uma Consulta e Outros Adicionais

5 de junho de 2007 - 17:11

A noite está no início e Fernando já está bêbado. Comprou uma garrafa de uísque e chegou ao bar com a mesma pela metade, além de ter bebido três ou quatro garrafas de cerveja com o amigo Daniel; que encontrou na chegada. Há oito garotas e seis rapazes, mais um barman e quatro garçonetes.
Fernando chama uma das garçonetes – uma loira de seios túrgidos e belas pernas -, ela se aproxima e ele pergunta:

- Pode me fazer um favor?

- Claro, o que deseja? – sorrindo.

- Desejo fazer uma pergunta.

- Pode fazer! – mantendo o sorriso.

- Tem pouca gente aqui… Eu cheguei cedo demais ou é sempre assim?

- Como o senhor se chama?

- Não me chame de senhor, por favor, só tenho dezoito! Chamo-me Fernando.

- Certo… Desculpe-me, Fernando! Ainda estamos no início da balada; lá para as duas horas a casa estará cheia.

Fernando consulta seu relógio de pulso e ainda são onze e quarenta e cinco.

- Ok, muito obrigado! Como se chama, senhorita?

- Ana Flávia. Para o que precisar, estou aqui.

- Muito obrigado, Ana Flávia… Educada e belíssima! – esboçando uma insinuação.

- São seus olhos, Fernando! Lembre-se que estou aqui para o que precisar… Deseja algo mais?

- Pode me trazer um Martini com Vodca?

- Claro! – Ana Flávia se vira e caminha até o balcão, enquanto Fernando fica abobado com as nádegas fartas da garota.

- Você viu isso? – Fernando questiona Daniel, referindo-se à garota.

- E como vi… Deliciosa! – com um semblante de tara.

- Eu pagaria trezentinhos para fodê-la!

- Putz, você não me disse que está desempregado?

- Mas eu fiz uma correria.

- Hum… Ainda está vendendo micro-pontos?

- Não, a fonte secou e eu quase puxei xadrez.

- Então foi o que?

- Um-cinco-sete.

- Nossa, maior adrenalina! Como foi?

- No consultório de uma dentista, em São Bernardo do Campo… Espera que a garçonete está chegando.

Ana Flávia se aproxima com a taça de Martini e Vodca, pedida por Fernando, numa bandeja.

- Aqui está, Fernando. – pondo a taça sobre a mesa. – Mais alguma coisa? – dando uma piscadela.

- Você sai que horas?

- Desculpe, tenho namorado.

- Prometo que não conto a ele!

- Cuidado, ele é valente!

- E eu sou descarado!

- É?

- Sim, posso te dar uma aventura bastante excitante.

- Eu até toparia, porque te achei uma gracinha, mas tenho um compromisso.

- Nunca viola regras?

- Não gosto de violar regras.

- A pergunta foi outra!

- Algumas vezes.

- Fica excitada quando as viola?

- Não entendi.

- Imagine-se quando criança, transpondo os limites impostos pelos seus pais.

- Sim, continue.

- Estar fora destes limites te excitava?

- Sim, mas eu apanhava no bumbum ou levava uma bronca daquelas!

- Sempre? E nas vezes que ninguém descobria?

- Dava medo.

- Medo de que?

- Medo que descobrissem.

- Um excitante frio na barriga, não é?

- Sim, era um medo que me perseguia por muito tempo… Só passava quando partilhava com alguma amiga.

- Sentia um alívio?

- Isso, um alívio.

- E mantinha uma cúmplice que não podia contrariar?

- Não é bem assim, mas posso dizer que sim.

- A garota está ficando constrangida, Fernando! – intercede Daniel.

- Não, gostei do papo! – Ana Flávia, animada.

- Vamos fazer uma coisa? – pergunta Fernando a Ana Flávia.

- Depende do que deseja.

- Espero seu expediente acabar e saímos só para conversar… Não te obrigo a nada que não queira e prometo que farei de tudo para, no mínimo, sermos bons amigos.

- Bons amigos? Sei… – em tom irônico.

- Você quem sabe… Se me der este voto de confiança, ficarei honrado.

- Vou pensar.

- Esteja a vontade… Ah! Não se sinta obrigada a me dar atenção; trabalhe em paz!

- Não é em paz que trabalho, porém muito obrigado. Enquanto estiver aqui, darei o melhor de mim para que se sinta bem. – dando outra piscadela e acariciando o dorso da mão de Fernando.

- Será um prazer e uma honra! – retribuindo a piscadela e tomando a mão da moça para beijá-la.

- Você é muito gentil… Ficaria conversando contigo, mas a casa está enchendo e preciso trabalhar um pouquinho.

- Ok, espero a sua resposta ao final do expediente.

- Pode deixar, pensarei com carinho. – soltando um beijo no ar.

Ana Flávia se afasta e Fernando fica em transe, observando o corpo voluptuoso.

- Amigão!

- Como?

- Estou aqui! – Daniel, às gargalhadas.

- Nossa, cara, que mulher gostosa!

- Sem querer te interromper, e o um-cinco-sete?

- Ah, pode crer! – após um gole da bebida.

- Você disse que foi no consultório de uma dentista.

- Sim. Um amigo meu trabalha na casa desta dentista e me contou que o seu marido, dono de uma empresa de informática, guarda dinheiro no consultório.

- Esse seu amigo trabalha de que?

- Ele é caseiro; arruma o jardim, limpa a piscina e faz serviços gerais. Conseguiu a informação porque está comendo uma empregada de lá.

- E como você meteu o um-cinco-sete?

- Esse amigo me passou que na quinta-feira é o melhor dia, então marquei todos os horários da tarde com duas semanas de antecedência. Chamei outro mano para aplicar a ação e nos armamos com duas quadradas, nove milímetros, para dar o bote.

- Hum… Deu tudo certo?

- Claro! Entramos, rendemos, pegamos o dinheiro, algumas próteses e dois notebooks. Deixamos a atendente e a dentista amarradas na fita e saímos pela recepção do prédio como se nada tivesse acontecido.

- Levaram quanto?

- Quatro mil para cada.

- Putz! Não tem como me por numa fita dessa?

- Se rolar, eu te aviso. – dá outro gole na bebida.

O bar está mais movimentado e Ana Flávia retorna.

- Estão satisfeitos? – pergunta a moça.

- Ainda não. – responde Fernando.

- O que te falta, querido?

- Uma moça prometeu pensar em sair comigo para conversar… Estou angustiado por esta resposta.

- Hum… A moça está quase aceitando, chegou a conversar com algumas colegas de trabalho sobre isso, mas ela precisa de um euforizante para pensar melhor.

- Nossa, não sabia que esta moça tem asas tão compridas!

- Mais compridas do que possa pensar!

- Trinta gramas são bastante para a moça?

- Tentador!

- Nem eu estava sabendo dessa! – exclama Daniel.

- Uma surpresinha. – brinca Fernando.

- Você não quer me acompanhar até a cozinha para que eu prove a qualidade? – diz Ana Flávia.

- Só se for agora! – levantando-se sorridente.

- Espero você aqui? – pergunta Daniel.

- Ainda não sei. – Fernando responde tirando um papelote do bolso e entregando a Daniel.

- Vamos? – Ana Flávia.

- Vamos, amor meu. – segurando a mão da moça.

Ana Flávia e Fernando caminham por entre os trinta ou quarenta presentes até o balcão do bar. A garota cochicha algo no ouvido do barman, que balança a cabeça em sinal de positivo. Ela aponta uma porta atrás do balcão para Fernando e o guia pelo caminho correto. Eles entram na cozinha; um cômodo grande, mas abafado pelo calor dos fogões e fornos.

- Espera que eu vou pegar uma bandeja. – pede Ana Flávia.

- Tudo bem!

A dama caminha até uma pilha de louça a retirar a parte de cima da sua roupa, ficando de mini-saia e sutiã. Trás uma bandeja comprida e pouco larga.

- Está quente, não é?

- Muito! – Fernando se excita com os seios túrgidos da moça e permanece com os olhos estatelados nos mesmos por alguns segundos.

- Gosta deles?

- De que?

- Dos meus seios.

- (…) – Fernando fica sem jeito. – Sim, são espetaculares!

- Só isso? Esperava mais para mostrá-los!

- Sinceramente, fugiram-me todas as palavras possíveis… Meu instinto tomou conta de mim.

- Tomou? – comprimindo os seios contra a bandeja.

- Assim você me tira do sério, Ana!

- Talvez seja isso que eu queira.

Fernando se aproxima de Ana Flávia, segura a sua cintura por trás e sussurra ao seu ouvido:

- Para quem estava com tanto zelo pela relação com o namorado, você está me saindo uma bela duma canalha!

- Só estou seguindo a sua intenção de sexo e drogas. – lambendo-o na nuca.

- Algo mais?

- Por quinhentos reais, consigo uma morena de olhos verdes para a gente se divertir.

- Sei que consegue!

- Vamos chupar o teu caralho tão bem que irá nos esporrar todinhas. Depois te daremos muito carinho… Topa?

- Topo.

- Percebi pela rigidez sobre tua virilha.

Ana Flávia coloca a bandeja sobre um balcão atrás de Fernando e desabotoa a sua calça. Segura o seu pênis com carinho e começa a masturbá-lo, enquanto ele roça a boca sobre os seios da mulher e tenta arrancar o sutiã com os dentes.

- Calma! – interrompe Ana Flávia.

- Agora que você me faz ficar de pau duro quer que eu pare?

- Não viemos aqui para isso… Lembre-se do nosso trato.

- Você é mesmo uma canalha! Esquenta a bandeja para mim?

Ana Flávia vai até o fogão, pede licença à cozinheira, aquece a bandeja e retorna ao balcão.

- Cadê o pó? – pergunta afoita.

Fernando retira uma embalagem – similar a uma saboneteira – do bolso, abre-a e espalha uma boa quantidade de cocaína sobre a bandeja.

- Bate pra mim? – pede Fernando.

- Com prazer, meu lindo!

Ana Flávia saca um cartão de crédito do bolso e começa a esmagar as bolotas de farinha até desfazê-las em pó.

- Gosta de carreiras longas ou curtas?

- Você decide, minha querida.

Ele esmaga mais, para que o pó fique mais fino, e estira seis trilhar imensas com o cartão.

- Você cheira uma dessa de uma só vez? – Fernando, descrente.

- Sim. – enrola uma nota de dez Reais, põe no nariz e aspira duas carreiras sem parar.

- Olha, você é do traçado! – afirma espantado, enquanto a moça ergue a cabeça para aspirar o pó preso nas fossas nasais.

- Sua vez, querido!

- Não, não quero. Preciso estar de pau duro para você.

- Eu e minha amiguinha sabemos fazer um cacete subir em situações adversas, mas já que prefere assim…. – coloca a nota enrolada no nariz e aspira mais uma.

- Onde está a sua amiga?

- Espera um momento! – corre até a porta por onde entraram e põe a cabeça para fora.
Fernando está com tanta libido que resolve cheirar uma carreira para não ejacular precocemente. Ana Flávia volta e, logo em seguida, entra uma morena escultural a abraçá-la por trás.

- Ouvi a notícia e já fiquei toda molhada! – diz a morena. – Como se chama, meu lindo?

- Fernando, e você?

- Carla, – avança contra Fernando e lhe dá um beijo prolongado na boca.
Carla olha para a bandeja e pergunta:

- Essas duas são minhas?

- Claro! – responde Fernando.

- Cheirou uma? – sorri Ana Flávia.

- Muito tesão… Pra controlar um pouco.

- Vamos sair daqui… Está de carro? – Carla.para Fernando.

- Sim, estou.

- Onde estacionou?

- No estacionamento privado daqui do lado.

- Que carro é?

- Um Omega grafite. – mal sabem elas que é um carro furtado em Ponta Grossa.

- Hum… – Carla apalpa o pênis de Fernando. – Vamos sair pelos fundos, dá direto no estacionamento… Deixa-me cheirar minha última e já vamos.

- Ah! Desculpa cortar o tesão, mas os quinhentos são adiantados. – avisa Ana Flávia.
Fernando saca a carteira recheada com quase três mil Reais – o que concentra a atenção das garotas – e prende dez notas de cinqüenta no sutiã de Ana Flávia.

- Cuidado que as onças mordem. – brinca Fernando.

- Eu mordo bem mais gostoso do que elas… Vamos?

- Indique a saída que vamos para onde quiser.

Fernando sai abraçado às duas garotas, dando vida aos seus pensamentos libidinosos a apalpá-las. Chegam ao estacionamento e entram no carro: Ana Flávia senta no banco de carona e Carla no banco de trás.

- Nossa, esqueci uma coisa! – exclama Fernando.

- De que? – Ana Flávia.

- Não paguei a conta.

- Relaxe, me dá mais cinqüenta que eu pago.

- Não foi tudo isso!

- Mas estou te fazendo um favor. – dá uma piscadela.

- No motel eu te dou.

- Tem um legal no Centro! – grita Carla.

- Temos tantas opções em Sampa e você que a Boca do Lixo?

- É disso que eu gosto… Putaria! – a gargalhar.

- Nem precisava ser na Boca do Lixo, mas já que você disse; isso me excita! – Ana Flávia.

- Pois bem, vamos pra lá!

Fernando dá a partida no carro, sai da vaga, paga a estadia no estacionamento e invade a rua fritando os pneus; as garotas ficam mais eufóricas. Ana Flávia pede a cocaína, Fernando dá e ela passa para Carla tratá-la.

- Você dirige bem em qualquer condição? – Ana Flávia.

- Por que? – Fernando não entende.

Ana Flávia escorrega a mão até as calças de Fernando e as desabotoa, abre o zíper lentamente e puxa o seu pênis de dentro da cueca. Começa a masturbá-lo e ele reduz a velocidade com que conduz o veículo enquanto Carla cheira pó no banco de trás. Ana Flávia joga seus longos cabelos loiros para trás, abaixa a cabeça até por a boca no pênis de Fernando, faz carícias com a língua e o suga com desenvoltura. Fernando guia o veículo a trinta quilômetros por hora até que freia bruscamente num orgasmo. Ana Flávia bate a cabeça no volante, mas lambe todo o esperma a rodear a língua pelos lábios.

- Nossa, quase caiu o pó! – Carla.

- Caiu alguma coisa? – Ana Flávia.

- Não, sorte. O que estavam fazendo aí, seus safadinhos?

- Estava fazendo um carinho nele.

São duas horas da manhã e e chegam ao motel sugerido por Carla. Fernando estaciona o carro, deixa o quarto pago até a manhã e sobe com as garotas. O quarto é espaçoso e confortável; com televisão, cama redonda, aparelho de som e banheira de hidromassagem. Há uma mesa de vidro do lado da cama.

- Vê a mesa? Por isso que sugeri aqui! – Carla.

- Pode jogar todo o pó aí em cima. – Fernando.

- Todo? – Ana Flávia.

- E mais esse. – Fernando tira cinco papelotes do bolso.

O rapaz levanta a parte de trás do casaco e puxa uma pistola automática – presa pelas calças -, retira o pente de balas e coloca tudo em cima da mesa.

- Pra que isso, moço? – Carla, assustada.

- Pra vocês me matarem se eu abusar de vocês! – Fernando, sorrindo.

- Cuidado, Fé. – pede Carla.

- Não se preocupe, não brinco com isso.

- Ainda bem!

- Armas me excitam! – diz Ana Flávia.

- Excitam?

- Posso pegar?

- Está descarregada, pode.

Ana Flávia segura a arma e começa a apontar para alguns lugares do quarto, imitando o som de tiros. Passa pelo corpo enquanto tira a roupa numa dança sensual. Coloca o cano na boca e começa a se masturbar. Rodeia os mamilos com a coronha da pistola, descendo lentamente até a vagina; onde esfrega lentamente e introduz a pistola. Carla se assusta com a brincadeira, mas Fernando se excita e deita na cama a tirar a roupa. Ana Flávia pede para Carla tirar a roupa e esta obedece, a deitar do lado de Fernando. Carla masturba Fernando até o pênis estar rígido e se agacha sobre ele, subindo e descendo para o saltitar dos seios pontudos tomar a atenção do rapaz.

- Carla! – chama Ana Flávia.

- O que? – pergunta Carla.

- Olha pra mim! – masturbando-se e desejando ser observada.

Carla enverga o corpo para trás, a saltitar freneticamente sobre Fernando, e olha para Ana Flávia de cabeça para baixo. A garota impõe a arma contra Carla e aperta o gatilho… A arma dispara e a bala atinge a testa da garota.

- Meu Deus! Você é louca! – Fernando se desespera.

Ana Flávia permanece na mesma posição, como se estivesse em estado de choque, e, subitamente, começa a gargalhar em vias de insanidade.

- Você matou a mina, sua louca! – tirando o pênis de dentro da vagina de Carla e estendendo-a na cama.

- Atirou.

- Como assim, atirou? Você pegou o pente de balas!

- Não peguei. – com cara de dengo.

Fernando se lembra que esqueceu de retirar a bala que estava na agulha e entra em desespero.

- Você tocou em algum dispositivo além do gatilho?

- Nesta chavinha da esquerda. – apontando na pistola.

- É a trava de segurança… Tinha uma bala na agulha e você destravou.

- O que vamos fazer?

- Não sei. – com os pés no chão, sentado na cama e as mãos na cabeça.

Ana Flávia caminha para a cama, senta ao seu lado e diz:

- Engraçado, não estou com medo.

- Deveria. Isto foi um homicídio com uma arma ilegal e temos uma quantidade absurda de droga.

- A droga podemos consumir.

- Você não liga mesmo, não é?

- Não. Veja, está morta e estamos vivos.

- Você é realmente louca.

- Há pouco tempo transava com ela.

- Brochei com o susto.

- Quer que eu te mame pra acalmar?

- Não, estou pensando.

- Ela era muito linda. – tocando os seios de Carla. – Ainda está quente e a vagina continua lubrificada…. O tiro fez um furinho na testa e um rombo na nuca. Tem outro furo nas costas… Deve ter atravessado o crânio e se alojado na coluna.

Ana Flávia abre os braços e as pernas de Carla na cama, em disposição de estrela, e percorre o corpo com o nariz. Lambe a vagina e acaricia os seios como se estivesse viva. Fernando olha tudo num misto de tesão e nojo.

- O que está fazendo?

- Você não deu pra ela a última gozada. Interrompi e devo isso.

- Ela não sente mais, louca!

- Eu sinto por mim e por ela.

- Não acredito no que estou vendo!

- Então por que está de pau duro? Junte-se a nós!

Causo

Conto de Mar e Periferia

17 de julho de 2006 - 5:03

A rotina sempre foi feroz para Júlia, uma tenebrosa acomodação somada a todos os possíveis moralismos e abnegações. Viver longe do Centro é odiável; embora a praia esteja a poucos metros da janela do seu quarto, as facilidades de uma sociedade falida sempre estarão lá. Por este motivo as suas colegas insistem em dormir fora do estabelecimento, pagar um pouco mais por algo que custe menos esforço físico.

Ao sair do banho, com uma toalha felpuda, enxuga cuidadosamente o seu implante capilar, uma excelente aquisição de melenas loiras que a fez muito mais provocante. Uma imagem que o delegado Rodrigo admira sem que ela perceba, enquanto este saboreia o adorável início de manhã. Rodrigo exclama:

- Júlia, fique assim, desse jeito!

- Oi, querido! Como passou a noite? – pergunta a bela criatura.

Com um sorriso que tenta ser elegante, mas não consegue devido aos seus dentes castigados pela ação da cocaína, Rodrigo responde:

- Quer que eu avalie seu desempenho?

- Eu devo ser avaliada? O preço da mercadoria é dado e o cliente paga sem avaliação, meu caro! – brinca Júlia.

- Nossa, como ela está esperta! – respondendo à provocação – Será que os clientes da casa não deveriam ter o direito de avaliar?

- Eu prefiro a avaliação dos gringos pervertidos, eles não precisam voltar para casa antes das oito horas da manhã. Posso ganhar a vida em um lugar melhor do que esta porcaria se permitir uma avaliação destas. – vestindo a calcinha e com o semblante apanhado por certo desprezo, a meretriz pensa em despachar o delegado falastrão de uma vez.

- Calma, Júlia, eu só fiz uma brincadeira! Vem aqui conversar comigo de perto. – indicando a cama.

- Sabe, eu não suporto mais. Estou com saudades da minha família em Vitória da Conquista, eles nem sabem o que faço e acho que poderia voltar, mas quando penso que vou sair de uma “mesmice” para voltar a outra, fico desanimada. – lamenta-se Júlia, cobrindo os seus seios e fazendo Rodrigo sentir que precisa motivá-la para ter sexo de graça pela manhã.

Rodrigo se levanta ainda nu, caminha silenciosamente na direção da mulher que já aparenta tristeza e murmura:

- Júlia, não fique assim. Eu não pretendia lhe deixar triste, não quero lhe ver abatida. Vem cá, – abraçando-a e sendo correspondido – não precisa dizer nada para mim, mas eu estou aqui.

Mesmo sabendo do que estava sendo planejado, ela não segura as lágrimas teimosas e comprime sua face contra o peito do delegado. Júlia se sente sozinha, como sempre foi, e seus braços o envolvem com uma força que chega a incomodar. Rodrigo nada faz, observa a prostituta trazendo o sofrimento à tona e perde qualquer poder de ação, qualquer instinto em querer possuí-la; apenas permanece abraçado, calado.

Causo

Matilha

16 de junho de 2006 - 5:04

Então Lígia dirige eufórica, repleta de problemas que serão aliviados com um baseado e bom sexo antes de dormir. A demissão de parte do quadro de funcionários na empresa a deixa preocupada, mas seu namorado, Carlos, pode fazer a situação parecer menos deprimente. Ela tenta pensar em carícias sem pressa, beijos fogosos e mãos perdidas sobre o corpo enquanto avança mais um sinal vermelho, temerosa pelo horário nas vias ilheenses. Ao sair do Polo Industrial, imagina o Alto do Amparo para comprar as cinqüenta gramas de maconha a fim de durar a semana, pois na Conquista e na Santa Clara as bocas passaram a vender um material prensado com amônia que irrita a sua garganta e a deixa com uma dor de cabeça aguda.

Lígia tenta sentir algo pelas menores na beira da pista, com trapos tão minúsculos que chegam a ser ridículos, mas não consegue; tudo parece pior – mais gélido – a cada dia. Garotas de treze a dezessete anos se prostituem por cinco reais ou uma pedra de crack, fato já comum e inabalável às pessoas da sociedade. As meninas se prostram faceiras, em mãos erguidas, esperando por um porco que alivie a dor de seu vício.

Após contornar o Parque Infantil e seguir à esquerda no semáforo para a Avenida Oceânica, Lígia está na decadente zona boêmia da cidade. Antigamente havia um fluxo imenso de caminhoneiros que – com o seu apetite sexual – traziam doenças venéreas de todo o Brasil para a localidade. O relógio marca onze horas e Lígia se apressa, antes que Carlos durma.

Ao subir a ladeira para o Alto do Amparo Lígia percebe algo fora do habitual, que seria três ou quatro boqueiros andando pela rua; tudo está tão calmo que o barulho do motor chega a ser uma agressão. Dirige-se ao final da rua escura em frente à igreja evangélica para encontrar alguém e nada vê, portanto, resolve sair do carro e buscar por um caboclo que dispense a erva.

Lígia caminha pelo escuro e vê um rapaz atordoado que, após a perceber, caminha ao seu encontro. Em pânico parecido – ou de fato – com o efeito do crack, ele pergunta:

- E aí, qual vai ser?

- Quero cinqüentinha da massa. – responde a moça.

- Nós tem pedra também, é o pânico!

- Não, só a massa mesmo.

- Se ligue, cliente, cinqüenta tá russo! Só tem bala de cinco.

- Aí você me quebra, mo fio!

- Nós tudo já é quebrado mesmo! – sorri o rapaz.

- Então faz o seguinte, me passa quatro balas.

- Tem como me arrumar dois real pra fazer intera numa bicha?

- Tem não.

- Porra, madame, tu chegou pra comprar cinqüenta e não quer me considerar dois real?

- É, né? Depois fico sem grana pra comprar as tais cinqüenta. – Lígia expressa certo desprezo.

- Qual é a sua, vadia, tá fazendo marra, é? – o rapaz faz uma careta inteligível.

Lígia se preocupa e diz:

- Olha, deixa quieto. Eu vou indo.- caminhando para o carro.

O rapaz a segura pelo braço e esbraveja:

- Qual é, vadia, tá pensando que eu sou viado, é?

- Moço, me larga agora! – assustada, mas com um olhar decidido.

- Ih, olha só a vadia: sobe no morro cheia de regra e acha que pode mais que o outros! – assustando Lígia.

- Moleque, me larga.

- Cadê o real? – passa a mão esquerda nos bolsos da moça.

- Ei, quem você pensa que é, caralho? – tenta chutá-lo sem sucesso.

O rapaz a empurra contra a parte de fora da porta do carro e a estapeia na nuca com o dorso da mão, dizendo:

- Sua fela da puta, aqui não tem ninguém pra me mandar parar.

Lígia cai no chão e muda o discurso:

-Moço, façamos o seguinte, eu te dou a grana e você me deixa ir.

- Passa esse caralho, vadia.

Lígia tira os trinta e cinco reais do bolso e estende a mão:

- Toma, fica com ele.

- Eu tô desconfiando que tu tem mais do que isso, vadia. É só olhar pra essa barca que te trouxe pra me deixar empolgado.

- Não tenho nada mais.- realmente não tem, além de documentos da empresa e alguns cartões de crédito em sua bolsa.

- Fala sério, sua vagabunda, eu vou entrar contigo nessa porra e procurar. Se eu não achar grana vou ter que te meter a pica.

- Moço, não precisamos resolver as coisas assim.

- Então me passa o real. – Lígia, no chão, está entre as pernas do rapaz.

- Mas eu não tenho. – Lígia chora.

O rapaz, ao vê-la chorar, não se abate e comenta:

- Vai chorar? Assim que é bom. – empurra-a para o banco do fundo do carro, entra logo em seguida e fecha a porta. -Vou esperar a madame tomar uma atitude pra eu fazer uma festa hoje.

- Moço, já te disse que não tenho nada.

- Não quero nem saber. – dá um soco na face de Lígia e desabotoa as calças. – Quer fazer marra?

- Moço, não faz isso, pelo amor de Deus!

O rapaz esbofeteia a cara de Lígia algumas vezes e arranca a sua blusa:

- Belas tetas, vadia. Sabe que nunca comi uma branquela tão gostosa? Tira a saia pra evitar trabalho!

- Não vou tirar. Você não vê que se compromete fazendo isso?

- Como? Tá noiada, desgraçada? – arrancando a saia e a calcinha de Lígia com raiva.

Lígia grita desesperadamente enquanto o rapaz a esmurra sem piedade, até a calar. Com o rosto desfigurado, cheio de hematomas, a moça se entrega para que tudo termine o mais rápido possível.

Causo