Musa Consolatrix
seg, 08/10/2007 – 12:01 — O Espantalho
Abraço flores de marfim;
No seu peito o estopim (da minha coragem).
É cedo para se entregar,
Quem sabe controlar o tempo.
A luz do seu desejo nos afagou-
Tamanha fagulha clara e cheia de cor…
Imunda vontade rara dum crepitar,
Que apalpa toda a secura do paladar
(…)
Num dia cinza como este
Em que a farsa agora é o meu teste.
Num dia cinza como este
A farsa de ouro e luz se veste.
Um tal dia cinza como este,
Um dia cinza como este,
Cinza como este,
Cinza como este.
Abraço flores de marfim;
No seu peito o estopim (da minha coragem).
É cedo para se entregar,
Quem sabe controlar o tempo.
O esquecimento é o seu templo
E este vento é avesso a você.
Não queira retroceder,
Não queira nos surpreender!
Acordamos sem vontade de gritar,
Medrosos por não saber desta razão;
Um chão sem sustento pra nos compreender,
Talvez nos deixar
(…)
Num dia cinza como este
Em que a farsa agora é o meu teste.
Num dia cinza como este
A farsa de ouro e luz se veste.
Um tal dia cinza como este,
Um dia cinza como este,
Cinza como este,
Cinza como este.
De navios piratas a foguetes maranhenses:
Panem et circensis
(…)
Num dia cinza como este
Em que a farsa agora é o meu teste.
Num dia cinza como este
A farsa de ouro e luz se veste.
Um tal dia cinza como este,
Um dia cinza como este,
Cinza como este,
Cinza como este.
Trabalho de Vingança Para a Ladra de Lirismo
dom, 07/10/2007 – 19:14 — Durval Weyll
Não sigas este rastro de luz,
Pois te encantas por um canto de Osanha.
(Descasquei o feijão e o amassei distraído-
Estes abarás não sairão a contento)
Não copies estes versos trágicos,
Pois o desfecho pode recair sobre a tua alma.
(Aqueci o dendê e separei os camarões-
Ninguém me ajuda na dança dos escravos)
Não te envolvas demais com a feroz entidade,
Pois o que diz para ti pode ser brincadeira.
(Cortei tomates e cebolas para a salada-
Enquanto a massa está no fogo eu me divirto com a pimenta)
Não esqueças dos teus parentes mais próximos,
Pois Xangô se aborrece quando não te atinge.
(Preparei os quitutes e decorei as travessas de barro-
Não posso esquecer dos charutos e da cachaça)
Não te importes se a morte for tua companheira,
Pois pediste a Iansã da tua maneira.
(Conduzi os trabalhos nos lugares e horários-
Despachei meus desejos aos meus Orixás)
Não esperes a tristeza ser pouca e lasciva-
Vai doer de um jeito que não irás esquecer.
Sara e o Amante do Suicídio
dom, 07/10/2007 – 13:13 — Bela Bia Amordaçada
[Sara]
Conceda-me a Confraria dos Alaúdes
Em troca de sua saúde
E, então, dar-lhe-ei qualquer beijo de mulher,
Ou transformarei a sua tristeza em ré.
[O Amante do Suicídio]
Saúde já não possuo,
A minh’alma convalesce;
A tragédia em que atuo
Enforca o medo que me aquece.
[Sara]
Tolo! Vão!
Desconhece a intenção
Que é ser do seu lugar
E jamais se importar.
[O Amante do Suicídio]
Subestima-me, musa consoladora:
Sou de antes e não dagora!
O que me pede trar-me-ia tormenta,
Pois a morte se põe atenta.
[Sara]
Se é dor que deseja,
Com dor confortar-lhe-ei,
Mas espero que veja
Os supores da lei.
[O Amante do Suicídio]
Não temo a sua ira,
Sequer a sua paixão
Que sempre me tira
A beleza da ilusão.
Rose
sex, 05/10/2007 – 19:14 — Durval Weyll
Sou você quando minto pra entender do nosso jeito:
Esqueci do que eu sinto a seduzir o imperfeito.
Nossas horas são sagradas quando pedem sedução
E as palavras mais despidas dizem da nossa razão.
Eu me ligo à sua boca, não entendo o que é;
Dou a forma que despreza e não compõe a sua fé.
Eu me separo, sinto falta e ensurdeço o meu desejo,
Mas você se aprisiona entristecida ao que vejo.
Sempre cura as feridas mais profundas da minh’alma,
Abre outras dolorosas que expulsam a minha calma-
Drena a lágrima sangrenta que exibe o meu horror
Pra que eu saiba sem promessa o valor do seu amor.
Chega sem roupa e dança fula – chateada – sobre mim,
Comprime os seios – tentadores – do começo até o fim,
Quer outra foto decadente da nossa última vez
E uma promessa indecente para que sejamos três.
Gostamos de fingir, mas não fingimos sermos breves no prazer:
Alguma coisa aconteceu pra que o mundo se repita sem querer.
Gostamos de tentar fechar os olhos e esquecer por um minuto
A pequenez adormecida em um curto furto do que que sou.
Dia de Domingo
dom, 23/09/2007 – 18:06 — O Espantalho
Acordem, é domingo, não é dia de avareza!
O motivo do sorriso vem do monopólio da cerveja
E em ninfetas semi-nuas das propagandas de tevê;
A perfeita maquiagem para nos satisfazer.
Acordem, é domingo e o prazer é compulsório!
Vamos passear na praia a queimar algum petróleo
Em nossos carros nacionais de engenharia estrangeira,
Ouvindo mais outro sucesso de música passageira.
Acordem, é domingo: um dia pra euforia!
Que se fodam os males do mundo pois queremos alegria,
Mentindo pra nós mesmos que fizemos nossa parte
E que pra escória desse mundo é só questão de corte.
Acordem, é domingo, vamos ser a tentação,
Dando forma e sabor à mais bela ilusão;
Esqueçamos as tormentas bem debaixo do tapete,
Com uma conversa copiada que nos represente.
Dia de domingo: suor e diversão…
Olha como brinco com a nossa imprecisão!
Dia de domingo: suor e diversão…
Hoje não é dia para entrar em depressão!
Dia de domingo: suor e diversão…
Com tantos elogios vamos ceder à pressão!
Dia de domingo: suor e diversão…
Hoje há de tudo pra chamar nossa atenção!
Acordem, é domingo, tem jogo de futebol;
Os letreiros são a fome e a paixão é o anzol.
Embora os melhores vão driblar lá na Europa,
Somos todos brasileiros ao início de outra copa.
Acordem, é domingo, ressaca do sabadão…
A casa está imunda e lavamos nossas mãos
De olho no plim-plim e com uma puta dor de cabeça,
A buscar na idolatria algo que não entristeça.
Acordem, é domingo, dia santo para muitos,
Se não pagarmos nosso dízimo para Deus será um insulto…
E que os anjos iluminem a nossa vida desgraçada
Com um pão que é dividido por uma gente desalmada.
Acordem, é domingo, nossa vida está perdida,
Pois não somos solução, só um dedo na ferida.
Tomara que o dia traga mais do que descanso
E eu entenda de uma vez o motivo por que danço.
Dia de domingo: suor e diversão…
Olha como brinco com a nossa imprecisão!
Dia de domingo: suor e diversão…
Hoje não é dia para entrar em depressão!
Dia de domingo: suor e diversão…
Com tantos elogios vamos ceder à pressão!
Dia de domingo: suor e diversão…
Hoje há de tudo pra chamar nossa atenção!
Na briga de foices em que morri
Estava o sentido do que vivi:
Luz apagada e nenhum inimigo;
Eu nem percebi que estava ferido.
Gente gritando na escuridão,
Livre instinto calando a razão,
Tropeços em corpos já machucados
E sina do que nunca foi terminado.
Domínio daqueles que se esconderam
Debaixo das regras que estabeleceram
Bem antes que tudo se tornasse feto
Daquilo que hoje é um soco direto
Na cara de quem se integra sem chance
De poder definir o seu próprio lance
No jogo que há muito é decadente
E foge aos princípios do que é decente.
Fora de controle,
Estamos fora de controle!
Cresci imitando um molde comum
Que não me trouxe benefício algum,
Atrás duma tal de felicidade
Que exigia delírio e boa-vontade.
Um homem sussurra lá de cima, do céu,
Que eu preciso ser bem mais fiel,
Mas em sua casa eu encontro um ladrão
Que quer dez por cento do que tenho na mão.
Ouço no rádio um idiota a cantar
Sobre o modo jovem de se comportar…
Cada um, cada um; em seu próprio lugar!
Se foda, canalha, não vem me enrolar!
Digo as coisas sem ordem ou destino,
Coisas de mim mesmo, o adulto e o menino.
Rimar é fácil, difícil é exibir
Toda a verdade que me obriga a mentir.
Fora de controle,
Estamos fora de controle!
Olho pra mim e vejo um personagem
Daquilo que quero ser a minha imagem;
Creio nesta droga e chego a chorar
De algo que nunca vou vivenciar.
Do bolinho podre, eu sou a cereja,
Regado à minha falta de certeza…
Então há o tempo descoordenado,
Quando classe e luxo morrem abraçados.
Todos prestaram bastante atenção,
Todos aqueles que são ilusão,
Todas as caras de um descarado
Que desenha o futuro e apaga o passado.
Sou por você, sou pra você,
Sou para mim, sou pra morrer,
Sou infinito, sou o limite,
Sou um imbecil, sou quem insiste.
Fora de controle,
Estamos fora de controle!